SAIA JUSTA PRA MACHO

 Por Luiz Francisco Guil   

 

 

Os machos modernos proibiram-se quase todas as maravilhas da indústria da confecção. Se o design foge uns poucos centímetros do traçado padrão, o usuário corre o sério risco de ser considerado “fresco”. Vestimos calças pretas ou azuis. E nossas camisas são desenhadas com tons de cores necessariamente discretos.

Como a Natureza, que não poupa matizes em suas criações, elaborando sempre o verde supremo, o amarelo saturado, o vermelho sanguíneo, nossos antepassados não economizavam cores em suas vestimentas. Os soldados de Alexandre, o Grande, trajavam túnicas coloridas nos mais variados tons. Os romanos usavam saias amarelas e vermelhas com toda desenvoltura.

Os nobres franceses renascentistas utilizavam, além de todos os recursos de indumentária à sua disposição, longas e coloridas perucas. Os índios ainda se pintam com tonalidades fortes para mostrar ao mundo e aos deuses a beleza da Criação. Os machos de todas as espécies de animais orgulham-se de suas cores, mas o homo europeus ocidentalis tende cada vez mais para o cinza.

Foi uma grande descoberta essa, a de que não nos podemos enfeitar, uma excelente maneira de poupar dinheiro e facilitar a escolha das nossas tediosas e fúnebres vestimentas. Somente as mulheres podem aproveitar as novas dádivas da tecnologia, escolhendo à vontade as milhares de opções de camisas, calças, saias, taileurs, blusas, vestidos, camisetas, echarpes, luvas, bermudas, cachecóis, tiaras, colares, brincos, pulseiras, fitas, faixas, plumas e paetês. Até as cuecas reduziram-se a dois ou três modelos, enquanto as mulheres desfrutam de milhares de formatos de suas imponderáveis calcinhas.

Reduzidos à perpétua feiura, os homens ocidentais não aceitam a possibilidade de enfeitar seus peludos e rijos corpos com algo mais chique e criativo que os quadrados, calorentos e feios “ternos” europeus. Um homem, quando quer se enfeitar, põe toda sua criatividade na gravata. Aí abusa. Mesmo nos mais honoráveis e cinzentos senhores, pode-se encontrar nesses adereços motivos tão singelos quanto patos e peixes, ou tão berrantes quanto gaivotas e sereias. Mas a legião dos machos não perdeu somente a capacidade de vestir-se com algo menos indecente que paletós e calças jeans. Também perdeu o acesso às mais belas palavras já criadas pela nossa imaginação.

Enquanto as mulheres — e outros ramos de assumida feminilidade — esbanjam vocabulário, o homem-macho restringiu sua linguagem a uns poucos termos técnicos. Vejamos quantos falam em flores, por exemplo. “Que linda esta flor!”. Há exclamação mais admirável? No entanto, homem que é homem está proibido de exclamá-la. Quando muito, pode cheirar a flor e guardar em seu secreto depósito de maravilhas secas o sentimento de que aquele objeto, aquele “ser” é realmente uma bela flor. Porém, dizê-lo em público seria um atentado contra sua fértil bolsa ornamental.

Do mesmo modo, os machos estão proibidos de usar expressões carinhosas, exceto entre quatro paredes, depois que se apagam as luzes. “Amor” só pronunciam os barbados vocalistas de bandas românticas, o padre durante a missa, o publicitário que pretende vender comercial de motel e aquele chato que chama a namorada de “Amor” desde o primeiro dia de namoro! O amor tornou-se palavra feminina.

Escreve-se com tonalidades rosas, que também pertencem, definitivamente, à classe feminina. E os homens perderam o direito ao rosa! Quando muito, pintam seus textos e slogans com tons salmões. Rosa, não! É definitivo. Se acrescentar 50% de branco ao vermelho, sai da faixa tolerável, dá um curto circuito, um nó na cabeça do macho. Trava! Se querem que o homem continue macho, pintem-no com cores escuras. Mesmo o azul, o verde e o laranja, se forem demasiado claros, podem denotar feminilidade.

Fiquemos assim: nas roupas masculinas não se misture branco a nenhuma cor — exceto ao preto, que resulta em adequados tons de cinza — e os machos poderão continuar falando grosso. Com que finalidade, não se sabe!

 

 

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