PSIU!

    Por Inês Monguilhott

 

 

 

Lá estava eu no reme-reme de minha vidinha prosaica, quando o mundo redescobre o assédio sexual. Tenhamos em mente o que é esse assédio, do que estamos falando. Há outros tipos de assédio, vamos nos lembrar disso.

Quando alguém, homem ou mulher tem uma atitude com implicações sexuais, evidentes ou não, elegantes ou chulas e a pessoa alvo dessa atitude está em nítida desvantagem, econômica, social, física ou de outro tipo que valha, isso é assédio sexual e é desprezível. É chantagem e ameaça. Não há desculpa possível. E pouco importa se o homem perde ou não seu emprego por uma denúncia de assédio. Já, quando alguém manifesta com bom ou mal gosto seu interesse sexual por outra pessoa, isso é lícito. Faz parte da vida sexual e reprodutiva humana.

Há um risco real de extrapolarmos e consideramos qualquer interesse sexual como violência, e algo moralmente sujo. Ou esperar uma sincronicidade romântica tamanha de afetos e interesses sexuais que termina por engessar os já complicados trâmites do sexo que, sabemos o quanto é turbulento.
A demonstração de interesse sexual de alguém deve ser estimulada ou não por quem recebeu essa demonstração e a resposta dada, seja qual for, deve ser entendida como tal: um não é um não, não existe interpretações.
O que chamamos de cantada não deveria incomodar a nós, mulheres, deveria até ser agradável, raramente é.

Por vezes uma cantada é tão tosca que constrange e nos deixa em uma situação desconfortável ou vem com uma insistência irritante. É o caso do rapaz que a garota concorda em encontra em um bar, contas separadas, e ele insiste em perguntar várias vezes antes se, depois desse protocolo dispensável, se “vamos sair”. “Vamos sair” é um eufemismo para sexo. Ora, se ele não compraria um carro sem examinar, porque alguém concordaria de antemão em “sair” sem conhecer antes? Migas, isso é tolice, machismo, tosquiadão, falta de noção, é muito mais, mas não chega ao que podemos chamar com propriedade de assédio. Basta dispensar.

Outro tipo de cantada urbana é a clássica, por vezes inconveniente, por vez agradável. Algo elogioso é dito à pessoa que passa: dar a perceber de público o entusiasmo com o que vê passar De vez em quando faço algo assim. É bem diferente apenas dizer: gato, gata, lindo, linda ou gostoso, gostosa quando o motivo do entusiasmo passa, que atravessar a calçada para comunicar “in box”. Acho isso muito mais invasivo e mais próximo da possibilidade do assédio sexual. Bem diferente é um comentário chulo.

- Ah... então, não demonstrem nada!! - Mas, não fica a vida um pouco mais chata e os relacionamentos ainda mais inacessíveis?! Uma vez, depois de usar minhas férias para uma exaustiva dieta, saí para meu primeiro dia de retomada ao trabalho com uma minisaia branca. Estava orgulhosa e feliz. Passando por uns peões que trocavam uma tubulação na calçada, veio de pronto a cantada de pedreiro: eu, com uma gordinha dessa, me matava!! Nem me dei ao esforço de demonstrar que ouvi, e cheguei no trabalho revoltada com o “gordinha” e feliz da vida com o reconhecimento de meus supostos atributos. Lembro até hoje.
Acontece que o grosso das cantadas masculinas não têm uma intenção sexual. É mais um reforço narcisista da presumida virilidade, ou é agressão, violência gratuita para reforçar o sentimento de poder do “fodão” inseguro sobre as “presas” disponíveis. Essa cantada é feita unicamente na intenção de constranger. O cara mal dá match no Tinder e entra de sola, sem ao menos cumprimentar. Curte um anal? - Por que, está oferecendo?!

Esse cara não pode crer que terá êxito com uma abordagem dessa, nem sabe o que faria com o êxito, além de mais agressão. Se a outra pessoa tem condições de retrucar a altura, se não há uma submissão, dependência, ou constrangimento que anule uma reação pronta e eficaz, ainda é assédio sexual, mas se a capacidade de revide é de igual competência, o assédio pode ser relegado a “apenas” uma filhadaputice cretina que tomou seu troco.
Acontece é que a priori somos mais fracas fisicamente, mais dependentes economicamente, menos valorizadas socialmente e somos treinadas para o não enfrentamento. Para ter vergonha de uma pouca-vergonha que não é nossa, é deles.

O pior de tudo, somos desautorizadas, desacreditadas e culpabilizadas pelas atitudes de qualquer canalha.O que não devemos é entrar é no beco da esterilização dos comportamentos sexuais, para atingir uma igualdade assexuada. Eliminar atitudes sexuais, a vitalidade natural do sexo, é nos empobrecer ainda mais. É ofensivo mandar um nude sem perguntar se a outra pessoa gostaria de receber. Não gosto nem de foto sem camisa. Mas, não é ofensivo mandar nudes se aceitam receber ou pedir que aceitem seus nudes com cortesia. Mais cortês ainda é entender que um não, é um não e ter a sensatez de evitar chegar ao não, aí sim, é sabedoria!!

Agora vou contar uma...um rapaz me perguntou muito educadamente essa semana se poderia me mandar uma foto, um nu com qualidades artísticas... fiquei curiosa e disse que não me ofenderia. A foto era interessante. Um torso virava-se na semiobscuridade para o que suponho que fosse um espelho, era o rapaz, nu, no esplendor de sua juventude. Os músculos bem definidos, fartamente “documentado”, no contraste entre luz e sombra.

- Linda foto... é artística?!- É: está em preto e branco.

Foto: philippweber.com

 

 

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