O MERCADOR DE VENEZA E O NÓ GÓRDIO

  Luiz Francisco Guil

 

 

Neste período medieval brasileiro, no qual os parlamentares mandam nos juízes — no “pequeno país frio” de Neruda, quem mandava nos magistrados eram os generais — e no qual o presidente se mantém escondido por trás das barbas de um Congresso mofado e ultrapassado, os velhos conhecimentos precisam ser resgatados. 

Não gosto de pensar que nossos antepassados possuíam soluções melhores que as nossas. Mas às vezes precisamos voltar a Shakespeare para entender onde está o nó que travou nosso desenvolvimento moral.

Quando o conquistador macedônio Alexandre cortou o Nó Górdio, não estava somente encontrando uma solução inusitada a um problema que parecia insolúvel. Estava abrindo a possibilidade de retroceder, sempre que necessário, a um estado selvagem, onde a lei se torna apenas uma palavra. Havia um enigma a ser decifrado, criado como elaboração de uma cultura. Sentindo-se incapaz de desvendar com a inteligência, destruiu o mistério com a espada. Uma brincadeira de imperador, que tudo fazia para a felicidade dos súditos, mas as repercussões de seu ato foram dramáticas.

Talvez alguns conquistadores posteriores desconhecessem a história de Alexandre, porém muitos deles usaram e usam a espada antes da inteligência. Incapazes de imaginar soluções pacíficas, inteligentes e éticas para desfazer os nós diplomáticos, utilizam navios, aviões, bombardeiros, com o que destroem cidades e países.

No caso do Brasil, na falta de representantes inteligentes e criativos (seu menino prodígio chamava-se Aécio), a direita usa como arma de guerra uma aberração das mais inusitadas. Um ser nascido das cinzas de um governo legítimo, que age como kamikase num avião carregado de bombas, para nos fazer engolir reformas que nenhum presidente eleito teria coragem de defender. Um estrategema sofisticadíssimo, este da direita, utilizar uma monstruosidade morta-viva para fazer valer seus caprichos. Mas não é esta a inteligência exigida por uma sociedade que se pretenda saudável!

Shakespeare ensina, com seu Mercador de Veneza, por que países como o Brasil não conseguem encontrar o caminho da ética. Um personagem judeu conquista o direito de tirar uma lasca do corpo de um mercador, após uma aposta perdida por este. Embora parecesse absurdo e desumano, o credor queria exercer seu direito. E sabia que o Estado, representado neste caso por seus juízes, não o impediria, pois perderia o respeito da população. Era preferível um Estado conivente com uma crueldade legalmente praticada, a um Estado generoso e frouxo, incapaz de respeitar suas próprias leis. O mercador estava na praça rodeado pelo povo sedento de ver seu sangue, o judeu já afiava a faca e se lançava impiedoso para colher seu naco de carne, mas acabou sendo obstruído pelo gênio retórico do escritor.

Nalgum momento da história brasileira um juiz, um parlamentar ou um estadista cortou o Nó Górdio. Após abrirem-se as portas para a ilegalidade, como controlar suas consequêcias? Como fazer com que os juízes pratiquem julgamentos isentos? Como esperar do Congresso e da presidência atitudes honestas em benefício da população, se seus líderes são patrocinados por empresas que se lixam com a alegria popular?

A história nos conta que desde o início da colonização uma classe privilegiada de brasileiros vêm saqueando este país. Nascemos corrompidos, prontos para assaltar nossos próprios cofres e sabotar nossos projetos de desenvolvimento. Durante séculos a classe detentora do poder praticou a Brasilfagia, entregando nosso ouro a preço de banana para encher os bolsos de cobres! Ou seria outro o motivo do Brasil passar 502 estagnado e escravizado às nações saqueadoras?

Quando os juízes deixam de efetivar a prisão dos congressistas corruptos e dos executivos desonestos, e passam a prender e condenar pessoas com base em delações de criminosos confessos, o Estado perde sua moral e ninguém mais precisa respeitar a lei.

As anticonstitucionais e vergonhosas “praças de pedágio”, instaladas contra as regras da nossa Lei Magna, são exemplo. Por meio de dribles na legislação, esse roubo que ocorre no varejo em rodovias estaduais e federais já tornou-se prática aceita, ninguém mais a contesta. A condenação de “suspeitos” sustentada em delações de criminosos confessos já está criando jurisprudência. E a prisão de ex-presidentes com base na convicção (sem provas) de juízes de primeira instância, em breve será prática corriqueira.

A solução tem sido a espada, antes que a inteligência. Nossa justiça tem olhos bem abertos quando quer camuflar os crimes da direita. Mas quando invade o campo da esquerda, a espada é cega.

“Com Temer está pior, mas é melhor assim”, é uma das postagens do Facebook mais virais dos últimos dias, revelando que nosso país corre perigo real e solicita medidas drásticas.

Foto:InfoBarrel
 

 

 

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