Da casa grande à senzala urbana

Por Zurene Manique

O lado paterno de minha família foi deixando o campo, pela cidade, por volta de 1945. Na rota do processo de urbanização, como milhões de brasileiros.  Mas antes disso labutaram muito na terra. Meu pai nunca se conformou com o ditado "o colono trabalha de sol a sol". No inverno, meu avô acordava os filhos (4 rapazes e 2 moças) por volta de 4 da manhã e às 5 horas, ainda escuro, já estavam na roça iniciando os trabalhos de lavoura. Em casa a vó tratava dos animais: 4 juntas (nome popular dado a uma dupla de bois utilizados para desenvolver trabalhos de tração em atividades rurais como puxar um carro de bois) de bois, 4 vacas, 70 porcos e 100 galinhas. Alimentava os 8 bois para liberá-los para o arado. Depois tratava as vacas com espiga de milho, mandioca, batata doce e capim enquanto eram ordenhadas. Na sequência alimentava os porcos e depois as galinhas. Paralelo a essas tarefas corria à cozinha e preparava polenta e carne no fogão à lenha. Após aprontar uma salada mista, pegava uma peça de queijo e ajeitava tudo num enorme cesto. Chamava um capataz que levava o lauto almoço para a família. Isso acontecia por volta de 8 horas da manhã. No decorrer do dia mais duas refeições eram enviadas. Os familiares só retornavam para casa quando começava a escurecer, ou seja, laboravam por mais de 12 horas.

A cena descrita acima serve apenas para ilustrar como se vivia no campo. Mas havia outra realidade paras moças campesinas de famílias mais humildes cujos pais eram empregados em fazendas. Essas meninas acalentavam o sonho de se mudarem para a cidade e terem um emprego mais leve. Desta forma, ir trabalhar numa casa de família com casal e uma penca de filhos e ter de lavar, passar, cozinhar e coser era um trabalho bem mais leve. Ainda que a jornada fosse de segunda a sábado (só paravam após servir o jantar e lavar a louça) e com folga no domingo. Não sei precisar a remuneração; sei que não tinham direitos, apenas deveres. E havia tanta mão de obra sobrando na roça que era comum se ouvir "não estou satisfeita com fulana. Vou devolvê-la e irei na colônia buscar outra moça". E isso transcorreu até o final dos anos 1960.

No início de 1970 a economia de Criciúma/SC, que já vinha prosperando com a mineração do carvão, viu-se fortalecida com o surgimento de cerâmicas de pisos, azulejos, lajotas, telhas e tijolos. Carecia de mais mão de obra. E aí as empregadas domésticas visualizaram a oportunidade de terem carteira assinada, jornada de trabalho e além de deveres, direitos garantidos por Lei. Então, as senhoras da sociedade já não podiam simplesmente "ir na colônia buscar outra moça".  E paulatinamente, as empregadas começaram a não mais trabalharem aos sábados. E pouco a pouco foram criando jornadas de trabalho de 8 horas diárias. Bem poucas permaneceram dormindo no emprego. E estabeleceram o salário mínimo como pagamento mensal. E férias remuneradas. No meu ponto de vista, aqui em nossa região, a empregada doméstica foi uma trabalhadora que sem ter um sindicato que a representasse foi impondo, sem greves, suas reivindicações aos seus patrões deixando muito claro que os dependentes ali eram eles jamais ela. Certamente pelos anos de inúmeras humilhações sofridas pelos maus tratos da patroa e caneladas de seus endiabrados filhos e pelos assédios sexuais do chefe da família essas verdadeiras "mucamas heroínas do lar alheio" abocanharam legítima e dignamente os seus direitos trabalhistas.

 

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