Além da saudade...

                                

Por Renato Uchôa (Educador)

 

 

Seu João das Moças, está aí? O grito abafa o ruído do capão no cozimento, o fogo da lenha não alisa couro, nem de cozinheiro bom. A voz se propaga no corredor de quase 30 metros. Açoita os tímpanos de vó Inézia (Dedé). No beiço do fogo. Do fogareiro de barro na casa de palha do quintal, pinhada de redes de tucuns. Chicote na mão faz a carreira, dobre sua língua moleque, o nome dele de batismo é João Evangelista de Carvalho. Poderia ser interventor, governador, prefeito... O couro comia. Apelidou, João das Moças, a adrenalina vinha do Afeganistão.

Dizem os da época que a opção de Inézia morena pelo músico/demarcador de terras João não foi apenas pelos lindos olhos azuis da cor do mar. Decidida, uma força de caráter impressionante a fez deserdar, abdicar de tudo que tinha para viver seu grande amor. De mala e cuia na mão... Adeus Santa Maria, para o outro lado do rio Parnaíba. Décadas e décadas de amor.

Perambulei no arremesso à cidade de Luzilândia, nome em homenagem à padroeira Santa Luzia, no desabrochar do pensamento, anos a fio, uma casa grandiosa de alegrias que por lá passaram gerações e gerações. Manga rosa, de espada, roxa, manguita, pinha...Todos os tipos de fruta, um sítio encravado no coração da cidade. O cântico dos pássaros era o despertador.

Festejo de Santa Luzia, subindo e descendo as ladeiras rumo ao Patamar... Albert Piauí, Antônio Romão, Antônio, Barnoquinha, Chico de Mariza, Ezequiel,  Glorinha, Marydalva, Dodó Macedo, Laurinha, Chiquinho, Aparecida Sales, Socorrinha, Rosarinha, Toinha, Paulo Uchôa, Mauro, Nei, Rommel, João Pinto, João Alberto, Brasão, Inaiá, Ivon, João Melo, Edson, Alemão, Niquita, Crispin, Tiana, Ticiana, Terçando, Pelé, Afonso, Vasco, Luiz Azevêdo, Luiza e Lúcia Amélia,  Merlin, Carmem Lúcia, Rosário, Álvaro, Bernado Calango, Sansão, Bernado João,  Telêmaco, Pecadinho, Zé Gobila, Zé Teles, Paulo Pires, , Badaca, Miguel, Zé Antônio, Tirim, ... Café com bolo na Dona Luizinha; garrapa boa no seu João Lisboa antes da subida. Idas e vindas, do Ponto Chic ao bar do Marechal, passagem no bar do Véi com escala no do Chicão.  Sinuca de bico é para mané, bola na caçapa João Babao, o psicólogo Zé Bezerra  assumiu o posto.

Não me lembro em nenhum momento da convivência com meus avós de ter visto Dedé abatida, enquanto conviveu com vô João. A atração dos contrários (Eles) fez uma morada bela, uma convivência que hoje recupero na formação do meu lado de humor. Até que um dia, por volta das 20h, batida na porta, Dona Zulmira diz: Inézia João morreu.

As brigas embelezaram a nossa capacidade para olhar o mundo com o riso. “A gente não morre de ri com as lembranças”, a gente vive mais, revigoramos a época, quando encontro meu irmão João Pinto, que morou com os pais João Batista, dona Zulmira, e uma penca de irmãos/as ao lado. E a gente vive novamente. Aqueles momentos belos das discursões engraçadas deles.

Vó Inézia nunca teve papa na língua, bateu levou, chicote na mão, passe seus jumentos com as ancoretas de água para o do outro lado da rua. A calçada é para se andar, não é para animal educado; o coiceiro e mal-educado é o condutor.

Arruma a mala aí, vamos a Teresina. Dependendo do dia da semana, o ônibus, depois de inúmeras viagens no “Horário” (transporte que marcou uma época), ou era o Rei das Selvas ou o Bonitão. A saída de Luzilândia beirava às 5h da manhã. Vó Inézia, para não perder a viagem, café na mesa às 3h da madrugada, queimando a língua de sono. Um senso de antecipação quadruplicado, que o PT nunca teve nos primórdios do Golpe (Mensalão).

  Uma vez chegamos a Teresina. Entramos na casa de um parente na hospedagem. Sentamos na sala, e alguém falou, vão demorar quantos dias? Na bucha vó respondeu: 5 minutos, apenas beber um copo de água e seguir na estrada. Calça o chinelo menino, o tempo já correu. Solidariedade não se pede, se oferece, se dá de bom grado.

É possível e salutar que se conviva com as divergências, com a pluralidade de ideias no enfoque das relações cotidianas, na análise dos fenômenos sociais... quando o respeito come solto e açambarca a alegria de viver. Não pode existir a superioridade na relação, quando se entende o valor da liberdade. Quando não, o que ocorre é a imposição, a componente histórica da dominação pelo chicote, pela força bruta, pela falsa supremacia no espaço de convivência, a modo das diversas gangues que tomaram de assalto o mandato da presidenta Dilma.

 Vó Inézia nunca seria presidenta do Brasil, ou a sua vó, e se fosse, há dois anos teria mandado prender o juiz Moro por espionagem, e todos os conspiradores que assumiram a direção do país. Sob o comando do traidor Temer. Seriam enquadrados na Lei de Segurança Nacional, Lei Contra o Terrorismo...que agora se testa com “terroristas criadores de galinha”. Para o ministro da justiça da cabeça pelada, de ovo de cobra cascavel, desprovido da cultura jurídica inerente ao cargo, que tem arrotado, cuspido para todos os lados do mundo valentia, nos pegar todos de uma vez.

Acredite, o objetivo maior do Governo Golpista Imoral, que não vale uma pataca na visão do mundo inteiro que se posiciona contra o golpe é criar uma comoção para acionar o aparelho repressivo do Estado de Terror. A pancada do bombo, para você, que como nós não entendemos a passividade de setores importantes da esquerda, ainda atônita, independente disso, o avanço nas políticas públicas que retiraram milhões do purgatório das Elites, vai ser escutado.

Que você queira ou não. Dobre sua língua moleque, respeite o povo brasileiro, é o que diria vó Inézia. Resistir é preciso. 

Foto: radiowebms.com.br

 

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