A LIBIDO DO VELHO E O LIXO MENTAL

 Francisco Guil   

 

 

 A libido existe, não dá para fingir que não há. Faz décadas ela representa a energia sexual, ou qualquer coisa que se manifesta nos seres (humanos ou não) como um desejo de tocar (e degustar) um representante do sexo oposto (ou não). Nem mesmo o preconceito religioso é capaz de reduzi-la, ou extingui-la (ainda que tenha tentado séculos afora), pois é ela que proporciona a sobrevivência da Criação Divina.

Então, não há nada de errado no falar sobre a libido (ou o sexo), pois é coisa de Deus! Mas é necessário cautela quando avaliamos nossos desejos, à beira dos 50 anos. A aparente perda de libido faz pensar que estamos acabados. Você pode imaginar todas as possibilidades com aquela mulher charmosa que passa pela sua rua, mas quando tenta sentir, não sente muita coisa.

Nem mesmo ciúmes dela, ou inveja do rapagão que, dentro de algumas horas, estará com ela entre quatro paredes. A decadência manifesta: a ausência de um referencial de desejo, e o vazio exigindo interpretações que tragam um mínimo de conforto existencial. Se você conseguir aceitar o status que o Tempo lhe outorga, poderá desfrutar nessa mesma perda de suas antigas aspirações românticas um láudano, um agradável sedativo, um amortecimento.

Esquece aquelas inesquecíveis horas que vazaram feito mel entre seus dedos, entre seus dentes. Seus sentidos estão se esvaindo, sua alma se aquieta, seu coração pede descanso! Mas então alguma coisa acontece, e ela — a libido — se manifesta de forma vigorosa — para não dizer violenta — no seu velho e esquecido corpo. Então você percebe que esses rapazes moderninhos não sabem olhar uma mulher, nem extrair junto com ela os mais doces e inebriantes sabores que somente os corpos livres de conceitos sabem proporcionar.

E descobre que não se trata exatamente de um cansaço do corpo aquela falta de desejo, mas de um excesso de massa mental, verdadeiro lixo acumulado em seu cérebro, que atravanca a passagem dos sentimentos como num rio o acúmulo de folhas e galhos desanima o fluxo da água. Os corpos estão plenos aos 50 ou 60 anos.

Ensinados, prodigiosos, deliciosos como nunca. Lembre-se que a mais doce das laranjas não é aquela que esbanja cores e brilhos, mas aquela cuja casca já está rajadinha, e a consistência nem é das mais duras. Se você tem 20 ou 30 anos vai pensar que isso é uma tolice. Parece uma afronta dizer que velhos têm libido, que fazem sexo! Mas a verdade é que a maior tolice é a aquela que a TV, as revistas e a internet enfiaram dentro da sua cabeça, meu caro jovem! Quando chegar aos 50, você perceberá que o seu corpo sabe sorver a vida com muito mais facilidade, intensidade e precisão do que nos anos verdes.

O sexo aos 20 ou 30 anos pode parecer bonito na sua forma plástica, mas no campo da sensibilidade a diferença é brutal. Algo como degustar uma insossa salada de alface para depois experimentar uma inebriante muqueca de camarão. Não é por acaso que vemos, com certa frequência, velhinhos namorando moças, velhinhas namorando rapazes. Ficamos escandalizados, como já nos escandalizamos com moças andando de calças e com homens usando cabelos compridos. Mas excetuando aqueles deprimentes casos de “amor comprado” (aqueles políticos velhos e babões desfilando com loiras bombadas na Costa do Sauipe), a gente só pode suspeitar que a (o) jovem encantou-se com os acordes do(a) velho(a).

Sim, talvez vocês não saibam, mas os velhos têm um sexo muito mais satisfatório que o dos jovens. Obviamente, muito poucos velhos sabem disso! Foram tantos os momentos de medo, de decisões terríveis, de confrontos dramáticos, de derrotas, de horror! E tão poucas as vitórias, tão mínimas as conquistas! Mesmo aquele que conquistou um império, sente-se exausto, parece que deu muito de si e a recompensa é escassa. Pois não consegue desfrutar cada um dos centavos amealhados, somando-os um a um para um pleno deleite.

 O cérebro está inchado com os 50 anos de uma vida mal interpretada, mal compreendida, mal aceita e mal vivida. A mente preencheu-se de entulhos e pensa que foi o corpo que travou! Mas o corpo está sempre limpo, livre e pronto para a próxima estação romântica. Os remédios receitados para a recuperação da virilidade podem ter seus efeitos positivos, mas sempre deixarão um homem com um sentimento de impotência.

Ele certamente preferiria recuperar suas capacidades através de seus próprios méritos. Poderá fazê-lo a qualquer tempo, desde que se disponha a participar de uma das muitas terapias criadas para retirar o lixo mental.

Foto:Pinterest

 

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