AZUL SANHAÇO

 Por Francisco Guil               

 

 

Até os trinta anos consegui caminhar livre das armadilhas socioeconômicas. Agradava seguir à margem, derivar aos terrenos baldios para observar o mato chamado de praga e suas pequeninas flores de mel, os indesejáveis besouros e as milagrosas taturanas. Sentia-me bem em ser nada. Nem menos, nem mais que os besouros e as taturanas. Talvez porque à margem não temos a angústia dos desejos vulgares.

Eu não queria ter uma casa, um cofre e outros objetos que viessem fazer peso aos meus infortúnios. Sempre que via em minhas mãos um maço de dinheiro tratava logo de gastá-lo, ou distribuía entre os meus amigos e parentes. As notas queimavam em minhas mãos, sentia-me perdido e envenenado. Meu prêmio foi perceber que nessas condições, onde as leis do mercado não têm qualquer relevância, é possível realizar alguns feitos extraordinários. Se abandonamos os desejos materiais podemos entrar em consonância com o universo, já diziam-me os gurus indianos.

Se nos livrarmos da doença do consumo podemos aspirar a transcendência, contava-me a literatura periférica. Foi o que ocorreu naquela manhã após a noite no dancing, em que Ariadne Cortez e eu nos demos o primeiro beijo. Eu chegava em casa com o gosto fresco adocicado de sua boca e o sentimento leve, madrugador, de quem esteve pela primeira vez nos lábios de pessoa desejada.

 Foi quando vi o sanhaço que bicava os frutos da minha figueira. Bob Dylan cantava Mr. Tambourine Man nas cercanias e os rios dos ventos faziam ondas de nuvens nos céus. Sentei-me na cadeira de balanço rescendente a charutos de meu pai e chamei o sanhaço. Sem palavras ou assobios, somente com um anelo de presença. Ele galgou os últimos galhos, perscrutou os arredores, tremeluziu as íris por um instante e começou a descer. Foi descendo, caindo até o tronco, ao pé da figueira, depois seguiu a passos, pulando amarelinhas em minha direção.

Entregue e crédulo em minha doutrina do desapego, estendi um braço, certo de que meu amigo azulado subiria em minha mão como num galho, para nos conceder a glória de um encontro sem restrições. Mas neste instante umas mãos desavisadas jogaram uma bacia d’água pela janela da cozinha e o encanto projetou-se lá para os fundos da cerca. O sanhaço permaneceu alguns anos impregnando minha retina, como aqueles milagres que nos transformam em pessoas melhoradas.

Mas se dissolvem no decorrer dos anos e nos vemos novamente cinzentos, furiosos e desenganados. Aos trinta anos, quando acabou a adolescência e formei minha família, fiz o que estava ao meu alcance para me adestrar e tornar-me digno dela. Na busca do essencial, depois do necessário e finalmente do supérfluo, encontro-me hoje mergulhado no mercado, seguindo suas normas agressivas e tentando sobreviver.

Ainda me sinto um marginal, como parte do grupo dos irreverentes responsáveis, mas não posso negar que estou enterrado até o pescoço no universo consumista! Essa poderia ser uma das constatações mais trágicas da minha vida, se não soubesse de antemão que esse mergulho era inevitável. Participar do alucinante organismo dos homens de negócios é uma tragédia. Porque foi mal projetado e ninguém possui réguas para redesenhá-lo. Suas engrenagens mal se encaixam, e por falta de encaixe, como num velho motor de peças desgastadas, na corrida se maltratam. Aqui não se vive, aqui é o inferno, o frio sempre chega antes do inverno.

Vejo-me cada vez mais contaminado pelo vírus do consumo, prisioneiro das vitrines e dos balaios de ofertas. Mas, como doente que já não possui carnes para alimentar seu hospedeiro, não tenho objetos de consumo para consumir, e o monstro do capital está prestes a se evadir ou falecer. Pôneis não tenho, nem lago ou chalé, não tenho sequer uma plantação de milho, uma barcaça, uma fábrica de cachaça, uma torradeira de café. Foi uma delicadeza do destino, deixar-me assim, à toa, sem rumo, sem os presentes que no fim do ano meus vizinhos amontoam.

Não possuo sequer um diploma para ostentar em minha sala. E quando me pego a pensar em viagens lembro que não tenho malas. Sim, eu teria de entrar neste mundo doente e satânico, para depois entendê-lo e justificar-me aqui, abrindo as asas para um mergulho no Salto São Francisco. Quando estender os braços no abismo e novamente me desprender, livre do orgulho, dos sonhos e dos desejos, lá estará novamente o sanhaço descendo da figueira...

Foto: pinterest.com

 

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